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25 ANOS de COLE
Norma Sandra de Almeida Ferreira

Em 1978, o mundo ainda estava dividido em Oriental e Ocidental, comunismo e capitalismo, esquerda e direita, e, o muro de Berlim, de pé, era o símbolo maior desta divisão de interesses, de poder, de dominação, de polarização ideológica entre duas grandes potências mundiais.

O Brasil sonhava com tempos de uma sociedade democrática, lutava pelas eleições diretas, mobilizava-se em torno da anistia dos exilados, vivia momentos intensos de fortalecimento de alguns setores sociais, como o dos trabalhadores. Numa crítica, ao mesmo tempo, velada e explícita, sob inspiração dialético-marxista, denunciava sua frustração com o “milagre brasileiro” e o crescimento econômico, com o achatamento salarial, com a concentração de riqueza, com as desigualdades sociais. Um anseio de mudanças, inclusive educacionais, denunciava índices de analfabetismo nos limites de mais de 30%; o fracasso escolar em seus pontos críticos, evasão escolar e repetência, em número não menos alarmante; desiludia-se com a lei 5692/71, e sua reforma universitária, sua progressiva burocratização da atividade docente, sua adoção por uma pedagogia tecnicista nos mais variados graus de ensino.

Em Campinas (SP), neste mesmo ano de 78, um pequeno grupo de pesquisadores e professores universitários arquitetavam o I Congresso de Leitura do Brasil - COLE, impulsionados pela vontade, até então sufocada de dar “voz e vez” a conhecimentos que já vinham sendo produzidos na área da educação e da leitura e a uma crítica amadurecida durante os vinte anos de ditadura militar vinda de boa parcela de educadores da esquerda.

Colocando sob suspeita a escola dos anos 60 e 70 vista ora como simples “aparelho reprodutor da ideologia dominante”, ora como “instrumento da classe dominante utilizado para a exclusão e controle das classes populares”, este Congresso torna-se, desde o seu início, lugar em que se acredita que a educação era e é atividade de produção dos homens, pelos e para os homens, cabendo nesse lugar exercitar caminhos, encontrar brechas, possibilidades de atuação, espaços possíveis de serem tomados no interior da escola e da sociedade.

Nesta luta configura-se o que seria para os Congressos de Leituras sua principal marca de distinção: a educação é sempre um ato político. Uma afirmação que buscava combater a outra em que se entendia a educação como um fenômeno estritamente técnico-pedagógico, portanto, inteiramente autônomo e independente da questão política. E, em companhia desta, uma outra afirmação: a de que a leitura não erra apenas domínio de habilidades mentais, mas o ato de ler é, sem dúvida, um forte instrumento de combate à ignorância e alienação. (Ezequiel T. da Silva, 1981).

O I Congresso de Leitura no Brasil, em 1978, colocava na tensão entre sonho e realidade, teoria e prática, política e técnica, não apenas sua preocupação com os problemas de Leitura no Brasil, mas mais do que isso, aspirava aquilo que estava exposto como objetivo mais importante da Associação de Leitura do Brasil (ALB), promotora do evento: a luta pela democratização da leitura no contexto brasileiro.

No ano seguinte, na conferência de encerramento do 2º COLE (1979), Moacir Gadotti, assim, convoca seus participantes:

Numa sociedade de privilegiados, a leitura e a escrita são um privilégio. Ensinar o trabalhador apenas a escrever o seu nome (...), ensiná-lo a ler alguns letreiros na fábrica (...) para que não provoque algum acidente e ponha em risco o capital do patrão, não é suficiente.Um CONGRESSO DE LEITURA deveria reclamar para o trabalhador a possibilidade de ter acesso à cultura geral, a possibilidade de participar da construção de seu país.

Os primeiros COLEs (1978, 79, 81) vão se configurando como lugar de construção de um trabalho, uma reflexão que não se fazem sozinhos, mas são compartilhados coletivamente; lugar de mobilização e confronto de muitas vozes diversas e, talvez, dispersas, vindas de diferentes regiões do país, conforme anúncio na Revista “Leitura: Teoria & Prática” de outubro de 1983, do COLE a ser realizado em novembro daquele ano:

(...) A passagem do discurso à ação ocorre por meio da organização dos trabalhos, dos atos daqueles indivíduos e grupos que também percebem sérios problemas na realidade da leitura em nosso país. (...) que esse espaço chamado COLE, conquistado nos idos de 1978, seja preenchido com o maior número possível de experiências concretas, atos que responderam aos elementos de fundamentação teórica propostos através da revista 'Leitura: Teoria & Prática'. (p.3)

O COLE exercita em cada um de seus eventos, bianualmente (a partir de 1979), a idéia de que a produção acadêmica na área da Leitura (como campo de investigação teórica e metodológica independente de seus vínculos mais imediatos com a alfabetização, com o ensino de língua portuguesa e da literatura) não pode, não deve e não permanece murada no interior da academia. Este conhecimento sendo posto em circulação movimenta-se de diferentes formas e jeitos: na produção de experiências concretas no cotidiano escolar, espaço das formas plurais de trabalho; na produção de revistas especializadas e livros, intensificando um mercado editorial brasileiro; na atuação junto a órgãos governamentais quer seja na produção de propostas curriculares, quer seja na discussão das políticas públicas; na produção de materiais dirigidos à escola, entre outros.

Como passar do tempo, o COLE assume a necessidade de ampliar a discussão para além do espaço escolar e das instituições acadêmicas. Quer aproximar-se de ações de outras instâncias que também promovem a leitura e que produzem ou constroem as possibilidades de acesso ao que se lê em seus múltiplos objetos de leitura no interior da sociedade. Ilustra esse momento, a fala de abertura do 7º COLE (1989) de João Wanderley Geraldi:

'Nas malhas da Leitura, puxando outros fios' (...) os fios que temos puxado nos mostram outros fios, e outros, e ainda mais outros: a malha tecida não se fecha para encobrir, mas ao contrário, como malhas de leituras, abre espaços de discussões novas. Este é o porquê deste Congresso: tentar trazer para dentro da pesquisa acadêmica ou para dentro da prática pedagógica a visão daqueles que fazem da produção do que se lê o seu cotidiano, produção que não se limita ao texto verbal, mas que coloca, a cada dia, diferentes objetos de leitura.

Nesta ocasião os propósitos e intenções do COLE parecem apontar para uma certa mudança de visão e de organização dos trabalhos. Há que se agregar outras forças, vindas e produzidas em outras instâncias implicadas no mundo da leitura (autores, críticos, livreiros, pessoas envolvidas em órgãos oficiais que definem políticas públicas, entidades e programas de promoção da leitura), além de professores e pesquisadores. Também se assume, neste momento, de modo mais enfático que o conceito de leitura não poderia mais ser restrito ao texto verbal, mas deveria ser ampliado para a leitura de imagens, a da televisão, do cinema, das histórias em quadrinhos, das ilustrações dos livros de literatura infantil. Há um bombardeio de objetos a serem lidos em seus diferentes espaços por diferentes leitores. Há que se estar atento para essa diversidade e quantidade de objetos. Compreendê-los em seus modos de produção, de acesso e de circulação, nas estratégias de promoção e divulgação da leitura, para que se possa ampliar o debate sobre esta prática.

Em meados dos anos 90, os Congressos, a partir do 10º, passam aglutinar novos debates (educação especial, psicanálise, educação indígena, mídia e educação, história e educação, ensino de ciências) em forma de encontros internos/seminários numa perspectiva multidisciplinar, na configuração que hoje eles nos apresentam. Eles, os Coles, enfatizam uma perspectiva de trabalho com a afirmação de que são muitos e diversos os leitores. Estes têm múltiplas razões para ler, lêem em diferentes espaços com diversos gestos, lêem de vários modos realizando práticas circunscritas em torno de objetos distintos. Na defesa dos “excluídos” busca conhecê-los melhor, dando a eles lugar para a elaboração de sua própria voz, na construção de um debate que os inclua, inclusive como leitores, ainda que assim não sejam para todos imaginados.

Se até então, a tônica das discussões, era a insistência de uma crise da leitura, uma inadequação dos leitores e dos formadores de leitores e dos espaços de leitura que precisavam ser superadas pela ação política e pedagógica, em busca de um leitor melhor, mais crítico, mais fluente, mais assíduo na prática, com mais possibilidade de acesso aos livros, um professor melhor “equipado”, melhor formado, uma escola e biblioteca mais aparelhadas, na década de 90, o COLE assume que a insistência neste ponto de vista vem contribuindo para ignorar, desconhecer, ocultar outros modos de inserção dos sujeitos nas formas da cultura, deixando de colocar em pauta que a promoção ou exclusão desta ou daquela leitura estão diretamente envolvidas com questões culturais, políticas, históricas e sociais.

Assim, em nome da coordenação geral do 12º COLE , em 1999, Luis Percival Leme de Britto e Márcia Abreu abrem o Caderno de Resumos com as seguintes palavras:

É certo que parcelas da população têm pouco ou nenhum acesso a materiais escritos. É certo também que outra parcela tem a possibilidade de pleno acesso. Isso todo mundo sabe. A questão que se levanta, contudo, é se a representação do que seja leitura no discurso pedagógico não está ofuscando o fato de que a gente lê sim, lê mais do que se supõe, mas talvez não leia aquilo que a tradição letrada considera importante. (...) O que nos parece necessário, mais do que campanhas promocionais de práticas de leitura, é indagar, sem pré-juízos de valor, quem, o quê, como, em que condições, por que razões lê ou não lê, isto ou aquilo. Em outras palavras, trata-se de verificar que fatores sociais, políticos, econômicos, culturais, promovem ou desfavorecem esta ou aquela leitura, ou até mesmo qualquer leitura. Trata-se de abandonar a postura magistral de quem sabe o que o outro deve ser e fazer e permitir que aflorem as contradições, os interesses, os valores que informam as práticas leitoras na sociedade contemporânea. Trata-se enfim de pôr em questão tanto as leituras quanto os discursos sobre leitura, permitindo que se manifestem as práticas veladas, desautorizadas e desconsideradas. Talvez, deste modo, se torne possível o debate franco e sem preconceitos sobre leitura e cultura, leitura e sociedade. (p.10)

A vivência de todos os indivíduos na cidade das letras exige sim a luta por uma democracia social e econômica, condições fundamentais de leitura e de felicidade de todos, com podemos ler no texto de abertura do 13º COLE (2001). Exige também uma perspectiva que aceite a diversidade no tempo histórico e no recorte do tempo atual: nos modos de ler de diferentes grupos culturais com seus objetos e práticas, na produção livreira no Brasil em suas diferentes condições econômicas e sociais, nos espaços consagrados à leitura (biblioteca, gabinetes, clubes literários e escolas), no diálogo de várias linguagens em seus diferentes suportes de textos.
Hoje, nos preparativos para o 14º Cole trago as palavras de Ezequiel Theodoro da Silva, um dos idealizadores deste Congresso e primeiro presidente da Associação de Leitura no Brasil, referindo-se ao 1º COLE:

(...) o 1º COLE que, além de abreviar o termo Congresso de Leitura do Brasil, tinha uma relação com o verbo cola. A expectativa era de o evento colasse, grudasse na consciência dos professores, bibliotecários e outros agentes culturais, servindo como um fórum para a realização de discussões e debates em torno da problemática de leitura no contexto brasileiro.

Nesta comemoração dos 25 anos de COLE podemos responder às expectativas dos seus fundadores. A cada ano este evento cresce em número de participantes e de apresentação de trabalhos, evidencia uma produção que se tece em diferentes campos de conhecimento, que se apóia em diferentes vertentes teórico-metodológicas, que se inscreve numa malha de temas correlatos e multifacetados, agrega forças e propósitos, mas continua trazendo como sua luta “renhida”:

Podem dizer que somos teimosos em repetir a cada dois anos a mesma coisa. É uma questão de ênfase: para nós, prevalece a necessidade de lutar pela construção de uma sociedade em que ocorra o efetivo acesso de todos aos bens materiais e culturais que resultam da produção coletiva, ainda que fiquem propriedade de apenas uma parte, como nos coloca Luís Percival Britto, atual presidente da Associação de Leitura do Brasil.

 

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