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A
REVISTA LEITURA: TEORIA & PRÁTICA
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E O PROFESSOR -
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UM LEITOR EM FORMAÇÃO
Lilian
Lopes Martin da Silva
Faculdade de Educação - UNICAMP
Os estudos
sobre a leitura em nosso país avolumaram-se
e diversificaram-se enormemente nos últimos
quinze anos. Parte desse esforço vem sendo
canalizado para o conhecimento e a reflexão
sobre os professores enquanto leitores, dada
a posição estratégica que estes parecem
ocupar no processo de formação de novos
leitores.
Ora discutindo a didática da leitura na
escola, ora o aluno enquanto leitor, ora as
características do trabalho em torno dos
textos proposto pelos manuais didáticos,
chegou-se à discussão sobre as leituras do
professor, assumindo-se como uma espécie de
princípio que muito dificilmente se pode
ensinar a ler e a gostar de ler com sucesso,
se não se é também e de fato um bom leitor,
se a prática de freqüentar textos os mais
variados não é uma prática costumeira.
A um conjunto inicial de reflexões em torno
das dificuldades de compatibilização entre
ser leitor e ser professor no Brasil, em
função do desprestígio social da profissão,
do pouco salário, do tempo sacrificado,
enfim, da inexistência de condições
minimamente favoráveis à constituição do
leitor no professor, somam-se atualmente
diversas pesquisas que procuram, a partir
das histórias de vida dos professores,
equacionar a sua formação enquanto leitores.
Talvez o trabalho que melhor exemplifique
essa tendência seja o de Kramer (1996) e o
próprio seminário em que se insere esta
mesa-redonda possa ser tomado como sendo
emblemático do interesse que o assunto vem
despertando e da sua importância na pauta
atual das discussões sobre leitura.
Recolher histórias de leitura e de
professores, assim como resgatar através de
nossa produção literária narrativas de
formação que contam episódios, práticas,
modos de ver e de sentir a leitura, os
livros, etc. são movimentos que permitem
entender no passado e no presente a
materialidade e a historicidade da leitura
em nossa sociedade.
Penso que o trabalho mais recente de Lajolo
e Zilberman (1996) traz contribuições
significativas para o conhecimento do
leitor, particularmente quando - apoiadas
num raciocínio que estabelece semelhanças
entre o leitor empírico e aquele inscrito na
obra literária pelas mãos e pelos desejos do
autor – dedicam-se a explicitar os
diferentes tipos de leitores representados
em algumas de nossas obras de ficção,
através de minuciosa análise.
De certa forma o tema desta mesa-redonda “A
Imagem do Professor-Leitor Produzida pela
Mídia Escrita” coloca semelhante desafio,
tomando-se como universo de busca a mídia
escrita, da qual a Revista Leitura: Teoria e
Prática, enquanto periódico em circulação há
mais de dez anos, faz parte.
Sem pretender uma análise exaustiva e
conclusiva sobre o leitor imaginado para
esse periódico, apresento nesta reflexão
alguns apontamentos à propósito do assunto,
recorrendo especialmente aos primeiros
números da revista quando o diálogo com os
leitores pretendidos era mais intenso e
reportando-me exclusivamente aos textos,
opções e estratégias do Conselho Editorial
do qual sempre e até hoje faço parte.
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Quando falamos de imagem do professor-leitor
produzida pela mídia escrita, não falamos
dos professores de carne e osso, leitores
(ou não) dos textos que circulam em seus
suportes, produtos culturais a serem
consumidos.Não falamos de suas práticas,
suas preferências, ou dos diferentes modos
através dos quais participam do universo da
escrita; ou ainda, das inúmeras estratégias
de leitura que constroem em sua vida
cotidiana, das memórias que trazem da
infância quando então eram aprendizes de
leitura, das dificuldades que encontram na
escola para ensinar a ler ou dos esforços
que realizam individual e coletivamente para
superá-las.
Falamos de um professor-leitor construído
com tinta em papel pela imaginação de
alguém, um leitor representado. De uma
imagem que jamais será única e sim plural,
partida, de mil faces e identidades. Algo
inacabado, instável e fugidio, que se mostra
e se esconde no jogo de sombra e luz da
escrita nos impressos. Diferentemente
daquilo que costumeiramente chamamos de
“imagem”, esta imagem de que falamos não é
direta, não se entrega aos olhos, não se dá
para ser vista, não “aparece”. Nos textos,
tais imagens são mediadas pela escrita, são
tecidas nessa linguagem, constrangidas por
aquilo que é próprio desse aparato técnico -
sua linearidade, sua economia, sua
gramática. Imagens costuradas em palavras.
Entretanto essa imagem de que falamos, que
se tece em letra e sintaxe, a partir da
imaginação do autor, do que pensa ou
pretende de seu leitor, produz-se ainda com
a ajuda de outras, que estão para além dos
textos, propriamente. Estes, não tendo uma
existência abstrata, necessitam de um
suporte material que os carregue ao encontro
dos leitores. Assim, podemos imaginar que
nosso leitor - professor é também pensado,
imaginado pelos outros profissionais (o
editor, o ilustrador, o revisor) que ao lado
do autor fabricam a obra, seja ela o
impresso que for . Portanto as imagens que
buscamos estão inscritas nos impressos pelo
trabalho de muitas mãos, que ora agem em
sintonia de intenções e de opiniões, ora
não. Elas se manifestam na conjunção dos
diferentes aspectos da produção cultural
destinada aos professores: tipo de papel, de
letra, de impressão, formato, diagramação,
ilustração, seleção/conteúdo dos textos,
comentários, notas, etc.
Refletidos em conjunto todos esses elementos
podem ser tomados como indicadores, dentre
outras coisas, dos conceitos, das imagens ou
das representações de leitor que (em
conflito ou não ) presidiram a feitura da
obra.
Buscar alcançar estas imagens exige uma
espécie de travessia pelas múltiplas
linguagens que são convocadas no processo de
produção do impresso e que articulam
significados, explorando linhas,
entrelinhas, palavras e sinais, em busca dos
sentidos, das orientações ou mesmo das
intenções que podem carregar; animando-os, a
partir do nosso próprio repertório de
imagens e textos construído ao longo de
nossa história pessoal e coletiva.
Pode-se ir ainda um pouco além no estudo de
periódicos. Após inventariar sete
possibilidades de abordagem deste tipo de
publicação (por temas; importância e atuação
de personalidades; processos de
transformação sócio-culturais; relação
leitor-revista; produção de alguém na
revista; ponto de vista do periódico;
complementaridade entre textos e imagens na
produção de sentidos), Barzotto (1998) opta
por um programa de estudos em que se propõe
a considerar os textos de um certo
periódico:
“...sem destacá-los de seu veículo, nem do
universo textual que no ato da leitura, pode
provocar a produção de outros sentidos que
dificilmente serão percebidos ao se tomar um
texto isoladamente. O manuseio da revista
coloca em ato uma leitura entrecortada por
leituras e observações, ainda que fugazes,
de textos e imagens que se intercalam entre
outros textos.” ( Barzotto,1998:43 )
O autor se dedicará a um trabalho em que
procura equacionar processos de produção de
sentidos pela consideração em conjunto de
três elementos distintos mas imbricados:
“... uma revista periódica , tomada em sua
materialidade enquanto suporte de textos, os
textos propriamente ditos e o discurso
constituído pelo encadeamento de sentidos
suscitados no ato da leitura, em que
desempenham papel importante a forma da
revista e a forma que o texto nela assume,
bem como o movimento próprio de folhear
impingido ao leitor pelo objeto portador de
textos, mas que não se efetuaria sem aquele.
Dessa imbricação de fatores surgirão
aspectos da construção de uma imagem de
leitor na sociedade moderna. Ou seja, a
leitura instruirá os leitoras a manuseá-la e
a lê-la, visando integrá-los no grupo de
leitores pertinentes para o momento.”
(Barzotto,1998:45)
O projeto é ambicioso, exigente e singular
entre nós, e aqui aparece mencionado com um
propósito bastante específico: apontar para
a complexidade dessa busca e para a
importância que têm no seu interior aspectos
até então não sublinhados em esforços
semelhantes e que reportam à influência da
materialidade do suporte de textos na
constituição de sentidos e ao papel
desempenhado neste processo por tudo aquilo
que está ao redor dos textos propriamente:
formato, espaçamentos, tipo de papel, de
letra de ilustração, etc.
Em síntese, o que os textos dizem e como
dizem, ao lado do que se diz e do como se
diz em redor deles e para além deles nos
impressos são aspectos igualmente
importantes e merecedores de atenção quando
se deseja alcançar os leitores inscritos num
certo material em circulação.
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Tendo como pano de fundo essas considerações
podemos vislumbrar o tamanho e a
complexidade de qualquer análise que
pretenda equacionar uma produção cultural
destinada ao professor no que diz respeito
às imagens de leitor que ela carrega. Há
movimentos nessa direção já realizados, por
exemplo, em torno da produção cultural para
crianças e jovens, da produção didática e
paradidática, e, mais recentemente,
trabalhos que tentam projetar alguma luz
sobre o leitor brasileiro, pelo entendimento
de como ele é construído pelos textos
literários em diferentes momentos de nossa
história.
Não pretendo nesta ocasião me aventurar num
empreendimento de tal porte em relação à
Revista Leitura:Teoria & Prática, revista
semestral da ALB, lançada em 1982 e de cujo
Conselho Editorial sempre fiz parte. Quando
tomo e disponho diante de mim os 29 números
deste periódico, sou antes de tudo forçada a
admitir que em conjunto essa produção
carrega em si uma verdadeira explosão de
imagens de leitura, de leitor e de
professor. Imagens que dialogam entre si, um
texto fertilizando outro, contrapondo-se a
outro, contaminado pelas idéias de um outro
...São muitos textos, de muitos autores
diferentes...Ao longo do tempo são às vezes
vários textos de um mesmo autor, ou uma
mesma temática que retorna pelas mãos de
outro autor...Um universo de idéias, uma
explosão de imagens...Um universo de
leitores pressupostos, de interlocutores
eleitos, imaginados, com quem se partilha
pontos de vista, para quem se encomenda
tarefas, a quem se adapta, se entrega ou se
sonega informações, junto a quem se pretende
construir uma disposição para assimilação de
idéias, valores e pontos de vista que a
revista coloca em circulação.
Nesse momento, meu olhar mais atento não
será para essas imagens de leitor e de
professor que emergem dos textos dos autores
que publicamos. Mas para aquelas que parecem
ter guiado o trabalho do grupo que idealizou
a revista e que acredito poder recuperar não
só pela memória que tenho das discussões,
das reuniões, das conversas com a editora,
mas também revisitando os primeiros números
publicados para neles tentar encontrar a sua
expressão ou não. Além disso uma tentativa
de localização no todo da produção, dos
momentos de passagem, de mudanças, que podem
estar a sugerir uma mudança da imagem de
leitor.
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A Revista LTP está prevista nos Estatutos da
Associação de Leitura do Brasil - ALB cujo
texto foi elaborado no decorrer do ano de
1982, pelo comitê provisório indicado um ano
antes, para presidir temporariamente a
Associação. Este estatuto é submetido à uma
primeira apreciação dos associados no n.º
zero da revista, lançado em novembro de
1982. No texto, LTP aparece enquanto
promoção da Associação (item c do art.3º) ao
lado do Congresso de Leitura - COLE e dos
Seminários Regionais, representando uma das
formas de concretização daquilo que está
expresso como objetivo básico da ALB : a
luta pela democratização da leitura no
contexto brasileiro.
Nos Estatutos (que serão aprovados em 1983,
durante o 4º COLE), o professor é implícita
e explicitamente convocado a participar
dessa luta, numa dupla condição: como
associado (e portanto leitor em potencial da
revista) porque integra inequivocamente o
“universo de pessoas interessadas no
desenvolvimento da leitura” ao qual a
Associação se dirige e como membro do seu
Conselho Consultivo, para o qual estão
previstos além de livreiros, bibliotecários
e editores, dois professores universitários,
dois secundários, quatro de 1º grau e dois
de pré-escola.
Independentemente da verificação do real
envolvimento deste profissional ao longo dos
dezesseis anos de existência da ALB, nestas
duas frentes que lhes são abertas pelos
estatutos, há pelo visto uma primeira e
importante constatação a se fazer: o
professor está ali representado como um
cidadão ou profissional para quem é possível
(necessário e desejável) a filiação a
associações do gênero; um profissional, que
uma vez associado, se constituirá em leitor
de um periódico semestral especializado;
também em participante dos congressos e
seminários e alguém que ainda poderá se
fazer representar enquanto categoria junto à
entidade, alcançando uma forma de
participação mais ativa, através da emissão
de opiniões sobre os trabalhos em andamento
e de sua divulgação.
Trata-se a meu ver de uma imagem de
professor - como cidadão, devidamente
profissionalizado, que é também leitor e
freqüentador de congressos. Neste momento a
Revista parece apostar na existência de um
leitor com essas virtudes e disposições,
qualificando-o para uma espécie de parceria
em torno de propósitos que seriam comuns.
Uma imagem construída tendo por inspiração o
momento histórico pelo qual estávamos
passando, marcado fortemente pela
possibilidade de expressar o desejo de uma
sociedade mais democrática, pela
possibilidade recentemente conquistada de
maior mobilização e reorganização da
sociedade civil, momento marcado pelas
denúncias e também pelos anseios de
descoberta dos modos de se afirmar na teoria
e na prática os novos caminhos para a
educação e o ensino.
Ao lado do texto dos Estatutos, neste número
inaugural, temos o Editorial do qual podemos
extrair algumas passagens reveladoras de
maiores detalhes a respeito deste
professor-leitor imaginado/projetado por nós
e do tipo de relação que buscávamos
estabelecer com ele.
No Editorial afirmávamos que a revista
nascia “com o propósito principal de servir
como veículo para a comunicação e o
intercâmbio entre aqueles que se preocupam
com os problemas da leitura em nosso país”.
Mas, preocupação apenas parecia ser pouco
para nós. Na verdade, conforme dizemos no
mesmo texto, ela se destina aqueles que,
estando preocupados, “desejam lutar pela
democratização da leitura no contexto
brasileiro, através de um trabalho coletivo
e transformador”( grifos meus). Mais à
frente, no mesmo editorial , esse leitor
preocupado e também disposto a colaborar na
luta efetiva, será ainda convocado por nós a
participar da revista como autor, pois esta
pretendia ser “um fórum semestral de
debates, reservando aos seus leitores espaço
para relatar suas experiências teóricas e
práticas”.
Elevávamos assim, nosso público-leitor
desejado – os professores – à mesma condição
vivida por nós, colocando-os ao nosso lado,
como parceiros devidamente familiarizados e
compromissados com nossas causas.
Quem é este
alguém que além de preocupado, parece estar
disposto ao engajamento e tem relatos a
fazer?
É ainda no
editorial que vamos encontrar a resposta :
são “as centenas de educadores anônimos que,
na prática cotidiana, batalham para que
nosso povo possa ascender à leitura da
palavra impressa”, e que naquele número de
lançamento vamos homenagear, publicando
entrevista de Paulo Freire.
Assim podemos dizer que o leitor concebido
por nós , para o veículo que inaugurávamos e
a quem nos dirigíamos no editorial era em
especial o professor. Um professor que
julgávamos preocupado, que afirmávamos estar
anônima e quotidianamente empenhado na luta
pela democratização da leitura, a quem
desejávamos nos associar naquele momento e a
quem prestávamos homenagem. Nosso modo de
dizer os professores, tanto nos estatutos
quanto no editorial é permeado de imagens
fortes...do profissional disposto a
engajar-se, do cidadão em processo de
organização/mobilização, de alguém que a
despeito do isolamento e da falta de
reconhecimento agia em favor da leitura.
Tais imagens podem igualmente ser
encontradas num outro periódico emergente
naquele período - A Revista da ANDE -
Associação Nacional de Educação, fundada em
1979. Da leitura em conjunto dos editoriais
dos três primeiros números deste periódico,
publicados entre os anos de 1981/82, emerge
a figura do educador como progressista,
alguém bastante semelhante ao professor do
nosso editorial, que trabalha no dia-a-dia
constrangido pelo historicamente possível,
sem perder de vista, no entanto, as utopias.
É esta a imagem de professor que orienta a
equipe editorial deste periódico É a ele que
ela quer falar da tensão entre o sonho e a
realidade, a teoria e a prática, o político
e o técnico da educação, ora abordando as
discussões mais amplas, ora os assuntos do
cotidiano da escola. É também com ele que a
referida revista quer falar: “Algumas destas
matérias são de autoria de educadores pouco
conhecidos, pois pretendemos,
intencionalmente, fazer desta revista um
espaço de divulgação das idéias e reflexões
de pessoas que nem sempre aparecem nos
grandes debates, mas que têm uma
contribuição valiosa a oferecer. Pessoas que
(...) compõem a grande maioria dos
educadores (...) que juntamente com o
educando fazem a educação nossa de cada
dia.” ( Revista ANDE, n.º 3/82).
Como vemos, estão sendo eleitos como
interlocutores os mesmos educadores
anônimos, porém de valor, com quem nós da
LTP buscávamos uma relação de parceria para
o enfrentamento dos desafios daquela hora.
Como seria
em nossa imaginação esse profissional
enquanto leitor e como essa imagem estaria
inscrita na revista? Sem pretender uma
resposta exaustiva a essa questão, penso ser
possível arriscar algumas explorações,
sobretudo dos números mais iniciais da
Revista, acreditando com isso levantar
algumas pistas para o debate.
O Formato
Oferecemos aos nossos leitores, em novembro
de 1982, um volume ( o de número zero ) de
47 páginas, em papel tipo sulfite de uma
gramatura especial, num formato que se
diferenciava do formato habitual do livro e
do periódico especializado e também das
revistas de grande público. Algo próximo de
um quadrado de 23x23 cm, com seções bem
delineadas, os textos arrumados em duas ou
três colunas, encabeçados por títulos em
letras grandes, ladeados por pequenas
chamadas ( em fundo preto e letra vazada),
indicativas das seções a que os textos
pertenciam. Estes vinham antecipados por
pequenos textos-comentários, ou epígrafes e
entremeados por vinhetas e ilustrações,
traços e linhas. Tudo em branco e preto. A
única cor estava no título da revista, no
topo na capa, que trazia uma reprodução de
David Teniers, pintor belga nascido em 1610
e morto em 1690, tematizando o leitor do
século XVII.
Dessas características há uma que se mantém
inalterada até hoje: o formato. A opção pelo
formato quadrado significou naquele momento
um esforço de promover uma ruptura ou
diferenciação em relação aos periódicos já
existentes e em circulação. Tratava-se de
algo que não podia ser identificado com o
livro nem com a revista convencional. A
inspiração ou modelo era tomado emprestado
da REVISTA DA ANDE. Para nós esse formato
ajudava no desejo de descolamento do veículo
do mundo eminentemente acadêmico,
identificado a uma minoria elitizada de
profissionais, tão distante dos professores
que buscávamos encontrar, com quem queríamos
conversar. O apagamento ou a simples redução
das marcas do acadêmico tanto nos textos
quanto nos seus suportes materiais era no
nosso entendimento um movimento necessário
para o êxito que esperávamos obter com a
publicação.
O formato inusitado de um quadrado fazia
parte do conjunto de estratégias de sedução
de um leitor que se de um lado declarávamos
pleno de competências e qualidades, de
outro, parecia que pensávamos ser de pouco
ou nenhum “hábito” de leitura, de escassos
gestos em busca de melhor qualificação
profissional/cultural, de pouca intimidade
com publicações periódicas especializadas.
Assim é que o formato escolhido para a LTP
parece projetar uma certa imagem de leitor –
professor compartilhada por nós naquele
momento : aquele que, não estando
familiarizado com o discurso teórico,
próprio da academia, por não participar
diretamente deste centro produtor/difusor do
conhecimento, tenderia a estranhá-lo.
Tratava-se de um leitor a ser antes de tudo
conquistado, para aos poucos ir se
familiarizando com o periódico e então poder
ser formado.
A Diagramação
O novo formato também permitia uma
diagramação mais arejada dos textos e uma
combinação mais variada dos diferentes
dispositivos que se complementavam na página
em branco, de forma que cada página se
oferecia ao leitor mais como uma imagem em
que se combinavam diferentes
texto-linguagens, do que como texto. O
formato permaneceu inalterado ao longo
desses 16 anos e a meu ver revelou-se um
importante aliado não só nas intenções que
lhe deram origem , como também enquanto
solução estética, porque ao longo do tempo
tem permitido um trabalho sempre criativo e
bonito em termos de imagem - desenhos,
fotos, reproduções, vinhetas e outros
dispositivos onde a escrita é também imagem.
As vinhetas do número inaugural têm uma
particularidade interessante: em grande
parte são cartuns de autores diversos,
cedidos à editora Mercado Aberto pela Câmara
Rio-Grandense do Livro, que tematizam ora o
livro, ora o leitor, ora a leitura, numa
espécie de discurso cômico ou bem humorado
que se insinua pelos textos, numa
alternância de palavras. A este conjunto de
pequenos desenhos, somam-se uma vinheta de
página inteira, algumas figuras de
preenchimento ou fechamento de página e
ilustrações recolhidas do Menino Maluquinho,
do Ziraldo, assunto de um dos artigos.
Pergunto-me agora, o que teria orientado
tais escolhas por parte do Conselho
Editorial. Penso que esta composição pode
ser um indicador importante do nosso modo de
pensar os leitores da Revista naquele
momento: um leitor criança, inexperiente em
matéria de texto e leitura, incapaz de
conviver sem problemas com a página saturada
de escrita, mas possível de ser atraído
pelas ilustrações, pelos espaçamentos, e
pelo humor.
Quando tomo
a Revista da ANDE n.º 01 localizo em seu
editorial a seguinte afirmação: “Como não
acreditamos que forma e conteúdo possam ser
separados, estamos entendendo que a forma de
nossa revista é também muito importante. O
mínimo que tentaremos é que ela tenha certa
leveza e bom humor, supondo que o riso é uma
boa forma de crítica séria. Não gostaríamos
que ela, por abordar questões candentes e
relevantes, tivesse que ser necessariamente
sisuda. Isso implicará em evitar o
academicismo do conteúdo, condição que não é
das mais fáceis considerando que pertencemos
ao mundo acadêmico, do qual apresentamos as
qualidades e cacoetes. Vamos fazer um grande
esforço para elaborar uma revista bonita de
ver e fácil de manusear”. (Revista ANDE n.º
1/81)
Como se vê, nesses dois periódicos
contemporâneos entre si, o esforço
deliberado para apagamento daquilo que chega
a ser considerado defeito, vício ou cacoete
e que é tido como sendo próprio do mundo
acadêmico, é enorme, chegando a ser
tematizado no interior da revista. Ao lado
do rigor, da seriedade, da crítica, algo
leve, cômico, fácil, belo.
Essa aliança entre formato, imagens e humor
parece confirmar a hipótese de que os
primeiros leitores do periódico
aproximavam-se, na nossa representação, do
leitor infantil. Era o professor um leitor
em formação, um aprendiz de leitura . Alguém
a quem era preciso seduzir pelas imagens,
divertir, facilitar o manuseio do objeto,
falar uma palavra-escrita que encontrasse
ancoragem na palavra - mundo.
As Epígrafes e as
Orientações
Talvez seja também essa a razão para a
existência nos 13 primeiros números da LTP
de um outro elemento a se considerar: os
comentários em forma de epígrafes,
elaborados por nós da equipe editorial e
acrescentados aos textos selecionados para
publicação. Pequenos textos, geralmente
apresentados em letra menor, às vezes em
negrito, que a editora dispunha na página em
branco, ora logo abaixo do título, ora à
esquerda do texto , funcionando como uma
espécie de adiantamento para o leitor das
questões que ali seriam tratadas, das
opiniões que deveriam ser compreendidas.
Como a jogar luz sobre a sombra compacta do
texto, para iluminar os aspectos sobre os
quais este deveria por atenção. Um exemplo:
“Neste texto a autora relata o movimento
coletivo de produção de leitura e de
linguagem, oral e escrita, por parte de um
grupo de crianças de zero a sete anos de
idade, adolescentes e mães. Mostra como
através da vivência de situações concretas,
da partilha de trabalho e de opiniões é
possível devolver a palavra à criança e
vê-la transformada em texto, estória e
livro.”( Revista nº 05 )
Por vezes, em lugar da síntese, do destaque
ou da apreciação, as epígrafes eram um
espaço para a explicitação direta sobre a
leitura a ser feita. Tomo para exemplo uma
epígrafe recolhida da Revista n.º 1, escrita
para o texto da Profª Eni Orlandi, que se
chamava “A Produção da Leitura e suas
Condições”e sublinho em negrito a orientação
formulada por nós:
“A análise
do discurso oferece valiosos subsídios para
a compreensão crítica da interação
leitor-texto. Eni Orlandi nos oferece alguns
resultados de suas reflexões e
investigações, propondo um esquema para o
encaminhamento da leitura no contexto
escolar. Dar atenção especial à distinção
que a autora faz entre leitura parafrástica
e leitura polissêmica.”
Recados, comandos ou conselhos como esse se
tornarão comuns:
“Para ser lido e refletido em conjunto com o
texto da profª. Eni Orlandi, neste mesmo
número.”( Revista n.º 03).
“Especial atenção deve ser dada à parte que
trata da necessária ligação entre os
referenciais de um texto proposto e o
contexto histórico-social.” (Revista nº08).
“ Vale a pena ler mais de uma vez!” (
Revista n.º 01)
“Ler para verificar como o autor responde a
essas importantes questões” (Revista n.º 02
)
Os leitores inscritos nos primeiros números
da revista parecem ser antes de tudo
leitores que precisam ser tomados pelas
mãos, a quem se precisa guiar. E as
epígrafes parecem ser o lugar em que isso se
dá especialmente.
As Chamadas
A existência de “chamadas” que indicam os
gêneros a que pertenciam os textos:
artigos/estudos, pesquisa,
opinião/depoimento/entrevista, atualização,
divulgação, relatos de experiência, etc.
também parecem colaborar nesta orientação,
criando expectativas e apontando para o
leitor onde exatamente inscrever cada texto
no repertório prévio de leituras. A partir
da Revista n.º 01, as chamadas passam a
contar com o apoio de um ícone que sempre
vai se repetir, de modo que, batendo os
olhos, o leitor se situa de imediato e se
prepara para ler. Tais classificações
parecem buscar garantir a leitura adequada
em sua justa medida. Parecem fazer parte de
uma espécie de maquinaria planejada pelos
fabricadores do impresso visando refrear a
liberdade do leitor e garantir a leitura
autorizada, a compreensão correta, o sentido
pretendido.( Chartier,1998 )
O material selecionado
e publicado
Para a formação desse leitor, que
calculávamos poder controlar melhor através
das estratégias e recursos já apontados, das
orientações explícitas ou mais sutilmente
colocadas, julgávamos importante: a reflexão
sobre a leitura, o relato de experiências
bem sucedidas/refletidas, a divulgação das
pesquisas, dos lançamentos na área, a
opinião autorizada. Uma passagem, ainda que
superficial, pelos primeiros números sugere
que em nossa compreensão essa formação se
daria prioritariamente pela via da
informação ou da reflexão - teórica e
prática - sobre a leitura e a escritura,
especialmente na sua interface com a escola
e o ensino. Durante bastante tempo a ênfase
sempre foi essa. Era um tempo em que a
promoção e o estímulo à leitura passavam
pelo esforço de fazer circularem as novas
informações e novas reflexões que começavam
a ser produzidas principalmente no meio
acadêmico. Não eram muitos os espaços para
publicação. No início também não havia
material em grande quantidade. Precisávamos
muitas vezes escrever para poder fechar um
número. Essa situação, com o adensamento da
produção e com a consolidação do veículo e
da própria associação, foi aos poucos se
alterando, obrigando-nos a definir novos
critérios de seleção das colaborações.
No entanto fica claro que os assuntos
tratados pelos artigos, relatos, etc.
deveriam subsidiar a reflexão do leitor
sobre a leitura, a escrita, a formação do
gosto, o manual didático, as práticas
tradicionais, as inovações... Em nosso
projeto de democratização da leitura
inscrevia-se um programa de interrogação e
renovação de práticas, concepções, valores,
atitudes de leitura, como atestam os textos
as selecionados para publicação. Mas não é
só: inscreve-se também um projeto do
formação do leitor, inicialmente pela via da
informação, da reflexão teórica, da crítica
e posteriormente pela via da leitura do
texto literário. Esta é uma primeira
modificação que o periódico sofreu neste
tempo de existência e que ao lado de outras
parece apontar para mudanças de toda ordem:
alterações na composição do Conselho
Editorial, na conjuntura política, econômica
e social do país, na direção da produção de
conhecimento na área, na imagem de leitor.
Embora não tenha me proposto a fazer uma
reflexão sobre o conjunto inteiro das
revistas, nem uma avaliação das mudanças
sofridas, arrisco alguns registros e
comentários de alterações em aspectos
importantes da revista.
O primeiro deles diz respeito ao momento em
que deixamos, enquanto Conselho Editorial,
de introduzir as epígrafes. A cada leitor, o
texto. Isto aconteceu a partir do número
14/89 e representou a meu ver uma espécie de
alforria dos leitores em relação a nós. Não
me recordo exatamente das ponderações que
certamente nos levaram a essa decisão. A
mudança não mereceu qualquer explicação de
nossa parte aos leitores, como é comum
ocorrer em veículos desse tipo. Também não
sei dizer se houve alguma manifestação dos
leitores à propósito do assunto, através de
carta, etc. Simplesmente aconteceu das
epígrafes desaparecerem do nº.15 em diante.
Pode ser que um certo didatismo – talvez um
dos cacoetes do mundo da educação e da
pedagogia – do qual fazíamos parte tenha
começado a incomodar, afinal não somos os
mesmos o tempo todo. Restam interrogações:
os leitores teriam percebido a alteração? As
epígrafes cumpriam com seus propósitos ?
O segundo registro diz respeito ao momento
em que passamos a publicar poesias, contos,
crônicas.(n.º 12/88) numa seção especial
denominada Leitura. Pode-se perceber aí uma
mudança importante no nosso modo de conceber
o processo de formação do leitor-professor.
Não apenas pela reflexão sobre a leitura mas
pelo exercício da leitura. Ao leitor, antes
de tudo um adulto, o texto da literatura,
digamos, adulta, mesmo sendo ele professor,
a quem era mais comum a indicação do
paradidático da literatura. Este modo de ver
implicou ,por exemplo, na decisão de
organizar um encarte comemorativo aos dez
anos da ALB com poesias e contos, que
acompanhou o nº. 17 de junho/91.
Mais a frente, a seção Leitura passou a
acolher também os comentários de leitores
acerca de autores e textos da literatura, o
que evidencia que o leitor pressuposto neste
momento não é mais o mesmo de antes pois
parece compartilhar do universo de leituras
referidas ou, se não, está em condições de
,estimulado pelos comentários, vir a
compartilhar.
No n.º 23, de junho de 94, uma nova
diretoria eleita ( que permanece
praticamente até hoje ) anuncia no Editorial
mudanças na Revista:
“A nova diretoria da Associação de Leitura
do Brasil (...) tem como um dos seus
projetos reformular a Revista LTP, buscando
aprimorar ainda mais a qualidade desta
publicação e consolidar sua importância na
divulgação de idéias e no debate intelectual
de que vem participando ao longo dos últimos
anos. Temos muitos planos para o setor de
publicações, buscando dar um salto de
qualidade em nossa revista.”
Fazem parte do plano: a criação de um
Conselho Editorial Externo e a introdução de
duas novas seções, Leitura no Mundo e
Representações de Leitura. No próprio
Editorial encontramos a explicação para as
inovações, que pode ser assim resumida:
ampliação da penetração e representatividade
da revista, através da participação de
intelectuais de reconhecido mérito e de
diferentes regiões do país; a ampliação da
discussão sobre leitura através da
convocação de outros documentos que não
aqueles exclusivamente ou prioritariamente
ligados à instituição escolar; a ampliação
do universo de colaboradores, através da
incorporação de contribuições vindas de fora
do país.
Trata-se visivelmente de um outro momento,
com novos propósitos, novas possibilidades,
novas vontades. Ao lado das inovações
anunciadas, virão outras . A partir do n.º
25/95, a revista ganhou capa plastificada, o
que lhe dá certamente um acabamento de
melhor qualidade. Ela mantém alguns dos
recursos utilizados nos primeiros tempos e
por mim já mencionados mas se oferece ao
leitor enquanto imagem mais limpa. A página
em branco apresenta-se menos congestionada.
As chamadas são mais discretas, o preto
contrastante do início foi substituído pelo
acinzentado, dando um efeito de suavidade.
A Revista dos primeiros tempos que se
oferecia ao leitor em imagens mais próximas
do que identificamos comumente nos materiais
didáticos paulatinamente foi ganhando uma
espécie de requinte também neste aspecto.
Penso que a qualidade dos textos/autores
selecionados, sua atualidade constantemente
procurada pelo conselho editorial, a busca
de ligação do assunto - leitura - com outros
campos do conhecimento, tudo isso aliado às
mudanças já mencionadas inscrevem os
leitores da LTP num mundo cultural cada vez
mais alargado e refinado, oferecendo-lhes
uma imagem de si mesmos que os eleva à uma
nova condição de leitores.
BIBLIOGRAFIA CITADA
Barzotto, V. Leitura de Revistas Periódicas:
forma, texto e discurso: um estudo sobre a
revista Realidade ( 1966-1976 ) – Tese de
Doutorado - IEL/UNICAMP (1998).
Chartier, R. A História Cultural: entre
práticas e representações. Lisboa, Difel,
1988.
Lajolo, M. & R. Zilberman. A Formação da
Leitura no Brasil. Ática,SP,1996.
Kramer, S. e S. Jobim e Souza ( orgs. )
Histórias de Professores: leitura, escrita e
pesquisa em educação. Ática, SP, 1996
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