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REPENSANDO O ENSINO DE LITERATURA
Aldo Bizzocchi

Como todos sabem, o ensino de literatura portuguesa e brasileira faz parte do currículo escolar de primeiro e segundo graus e o conhecimento dessas literaturas é exigido na maioria dos concursos vestibulares. A justificativa para o ensino dessas disciplinas é a necessidade de nossos jovens tomarem contato com a literatura e, assim, com a língua portuguesa escrita em sua mais alta expressão. Em suma, o conhecimento literário faz parte da formação geral e humanística que se espera de qualquer cidadão escolarizado.

No entanto, o ensino de literatura nas escolas tem-se restringido, as mais das vezes, à história da literatura brasileira e portuguesa, exigindo do aluno, por exemplo, que decore o fato de que o início do romantismo no Brasil se deu com a publicação, em 1836, de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, ou que o barroco se caracterizava, dentre outras coisas, pelo teocentrismo. Paralelamente, exige-se a leitura de alguns livros enfadonhos, como, por exemplo, os de José de Alencar, que não servem, atualmente, como modelo nem de estilo literário nem de uso lingüístico do português.

Ora, a literatura é uma arte como qualquer outra, como a música, a pintura, a escultura, o teatro… Entretanto, o ensino de educação artística nas escolas não se restringe à história da arte, mas, antes, procura incentivar a criatividade dos alunos através da elaboração de trabalhos manuais. Igualmente, o ensino de música (nas escolas onde ele existe) não objetiva fazer os alunos saberem em que ano nasceu Beethoven, mas sim transmitir a eles os rudimentos de teoria musical e de prática de algum instrumento. Note-se que nem o conhecimento de música nem o de artes é exigido nos vestibulares (exceto, é claro, para as carreiras de música e de artes plásticas).

Assim, se o conhecimento das outras artes não é pré-requisito para a maioria das carreiras universitárias, por que o de literatura o é? A meu ver, o conhecimento literário só deveria ser exigido aos candidatos ao curso de letras (mesmo assim, se um estudante universitário de inglês só estuda a literatura dessa língua na faculdade, não seria o caso de um estudante de português aprofundar-se na história das literaturas de língua portuguesa também na faculdade, ao invés de fazê-lo no colégio?).

Se o objetivo do ensino de literatura na escola média é estimular no aluno o hábito da leitura, então por que, ao invés de obrigá-lo a ler obras de ficção de séculos passados, não se propõe a ele a leitura de obras importantes de não-ficção da atualidade, como os livros de Sérgio Buarque de Hollanda e Milton Santos, por sinal muito bem escritos, ou os de Carl Sagan, que possuem, aliás, excelentes traduções em português? Será que o estudo de obras, nacionais ou estrangeiras, que tratam de questões reais do mundo contemporâneo, como a globalização e a poluição, por exemplo, não é mais relevante que o estudo de obras ficcionais?

No meu entender, o conhecimento de literatura não é mais importante do que o de outras formas de manifestação artística, nem deveria ser privilegiado em detrimento das demais artes. Além disso, em termos culturais a literatura universal, com Dante, Goethe, Rousseau, Dickens e Joyce, dentre outros, é tão importante quanto a literatura de língua portuguesa. Por outro lado, a literatura é um dos produtos da língua, mas não o único nem o mais importante (parece-me que a principal função da linguagem é permitir a comunicação pragmática entre os seres humanos e não produzir literatura). Assim, por que a leitura dos estudantes deve se dar apenas sobre a literatura de ficção e não sobre jornais, revistas e livros de não-ficção? E por que os exames vestibulares não exigem dos candidatos à universidade cada vez mais o domínio de uma cultura geral, indispensável a qualquer profissional de nível superior, em lugar de cobrar deles apenas o conhecimento histórico da literatura portuguesa e brasileira?

* Publicado na Folha de São Paulo, 10 de julho de 2000, p. A3

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Paulo Cezar Rodrigues, paulonivia@yahoo.com.br, 8/8/2008
Concordo com o autor. Talvez, o insucesso da escola na "missão" de formar leitores proficientes ou, simplesmente, levar os alunos a tomarem gosto pela leitura, se deva, justamente, ao fato de se priorizarem os textos literários (muitos, totalmente dispensáveis)na aulas de leitura. Claro, que não é o caso de "banir" o ensino de Literatura dos currículos, mas sim de se repensar o ensino atual, olhando-o criticamente (sem paixão).


Wladimir, wmesko@gmail.com, 9/8/2008
Mas o problema não seria exatamente a falta de paixão?


Lucinéia S. Toledo, lutoledo@uai.com.br, 9/8/2008
O que o autor opina é muito sério e deveria ser discutido entre os educadores e inclusive, entre os gestores da educação no Brasil. De maneira geral, as artes, e não somente a literatura, são tomadas como uma espécie de "apêndice" no currículo e não é tratada com a importância que merecem, já que fazem parte de nossa formação geral e humanística, como diz bem autor do artigo. E com uma literatura universal tão rica,e com tantos tipos de textos interessantes circulando a nossa volta, temos que pensar numa língua viva na escola, em todas as suas dimensões: comunicativa, expressiva, estética, política, cultural... Quem sabe assim nossos jovens brasileiros não poderíam ser formdos de maneira mais crítica e criativa para participar, com autonomia, como cidadãos de fato e de direito, não só de voto, mas, de vez e de voz?


Maria dos Anjos Lopes Viella, mviella@zipway.com.br, 9/8/2008
Considero que o autor faz uma avaliação muito negativa do ensino de literatutra e da propria literatura. Há excelentes professores formando leitores na aula de literatutra e isso não é coisa recente. É evidente que alguns descaminhos existem, mas o autor exagera,no sentido deprecitativo, na sua avaliação inclusive na que faz de José de Alencar e das aulas de literatura, chegando mesmo a declarar a sua 'eliminação'. É bom lembrar Snyders em "Alunos felizes" que fala do obrigatório e da alegria, justamente no trabalho com textos literários. O obrigatório não é de todo mal. Ele acaba por gerar algum prazer e até formar leitores.Formei-me leitora nos idos de 1970 com uma professora que não fugia ao tradicional ,mas amava, sorvia (como o sorvete mais delicioso) as obras que nos recomendava (obrigava a ler?).A forma como isso repercute em cada um envolve inúmeros fatores. É necessário considerar que o mais decisivo não passa apenas por esses caminhos sinalizados, mas pela falta de uma política de leitura no Brasil. Na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, abril de 2004, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que “Todo povo tem fome também de beleza e alegria. Os livros, como a música, o cinema, o teatro, o circo e as artes plásticas, são alimentos de primeira necessidade da nossa alma.”
Todo e qualquer trabalho que vise promover a leitura ou discuti-la não pode desconsiderar este cenário da política da leitura no Brasil e ainda acrescentar que o debate em torno da construção de uma política nacional do livro, leitura e bibliotecas tem como cenário um país que ainda apresenta índices baixos de leitura, déficit de bibliotecas nos municípios brasileiros e a grande dificuldade de acesso ao livro gratuito. Os "retratos da Leitura" no Brasil" não são nada animadores De acordo com as Diretrizes básicas da Política Nacional do Livro
O País produz a cada ano cerca de 300 milhões de exemplares de livros e lança entre 12 mil e 15 mil títulos novos. Estes números, objetivamente, colocam a indústria editorial brasileira em um papel de destaque no cenário internacional. É a maior indústria editorial da América Latina (produz mais de 50% de todos os livros editados no continente) e tem um excelente nível de produção editorial. O parque gráfico brasileiro é atualizado e a produção de papel para imprimir e escrever é basicamente toda de produção nacional. Agora fica a questão. Enquanto não se
conferir à Política Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas uma dimensão de Política de Estado, teremos que conviver com esses dados:
-73% dos livros estão concentrados nas mãos de apenas 16% da população
- O Brasil possui 1.500 livrarias (o ideal seriam 10.000)
- Não existem livrarias em 89% dos municípios brasileiros.
A questão é mais complexa do que aparece.


ADRIANA, drymadeira@gmail.com, 9/8/2008
Penso que a opinião do autor sobre a Lteratura na Escola Média é bastante pessimista (como alguém já disse),entretanto, há uma questão controversa: é notório que a E. M realmente tem se preocupado em ensinar "história literária", porém, caro colega, essa mesma escola precisa ensinar exatamente isso... não somente (que fique claro!!)e sabes porque? Porque assim como eu, você e tantos outros, nossos alunos MERECEM! O conhecimento, seja ele enfadonho ou não´é sempre importante e a decisão sobre o que fazer com ele é uma segunda etapa... e não me cabe julgar!!


Ludimila Correa Bastos, ludimilacorrea@yahoo.com.br, 10/8/2008
Minha posição é bastante contrária a do autor. para mim o Ensino de Literatura, não tanto a Portuguesa, mas muito a Brasileira, é de grande importancia na escola. Através da Literatura Brasileira é possível conhecer diferentes momentos históricos e estruturas sociais vivenciadas pelo país. Literatura é cultura. Não deve ser reduzida apenas a "decorar" nomes de autores e datas, mas deve ser discutida, vivenciada e trazida para a vida. Restringir a exigência de conhecimentos em Literatura somente a candidatos do curso de Letras é o mesmo restringir parte da cultura e da história brasileira, que deve ser de conhecimento de todos nós. A lietratura deve ser apresentada aos jovens sim, isso é um direito deles. Depois de apresentada, cabe a eles decidirem o que fazer...


Wladimir, wmesko@gmail.com, 10/8/2008
Mas o que seria a "literatura obrigatória" que deveria ser ensinada nas escolas? O autor tocou numa questão interessante, que é considerar não apenas a poesia ou a narrativa ficcional como obra de literatura.


Eliane, ec-gomes@oi.com.br, 10/8/2008
Acredito que a literatura em si deve ser apresentada ao aluno. Segundo o texto, seja de obras contemporâneas ou não, brasileiras ou não. Agora, os "clássicos" da literatura brasileira e, se for possível, da portuguesa, devem continuar no planejamento, sim. O aluno, ao saber que existe uma gama de possibilidades de leitura ao seu redor, fará a sua escolha. Ele decidirá o que é ou não enfadonho depois de conhecer. Agora, se ele obtiver o hábito da leitura inicialmente, para nós, professores, certamente já será uma vitória.


Maria de Lourdes Teles, lourdinharp@ig.com.br, 10/8/2008
Essa questão é muito séria e exige de todos os educadores uma atenção especial. Não acredito que haja desinteresse dos alunos em relação ao texto literário. Tenho experiência com literatura no Ensino Médio. Quando entro na sala para trabalhar gramática ou redação, meus alunos próprios alunos demonstram preferência em trabalhar com o texto literário. Isso é muito gratificante, pois sinto neles o gosto pelo texto literário. Em minhas aulas busco trabalhar o texto literário, enfocando o estético, o histórico e o social. O que tem acontecido é que muitos professores não gostam de literatura, portanto, não poderão motivar nossos jovens para esse tipo de texto. Ou seja, deixam de propor em suas aulas uma reflexão contextualizada e estética do texto literário. Acredito que a forma de abordar o texto é importante e o elemento propulsor da motivação. Fico preocupada com posturas como essa, que podem eliminar de vez a literatura do currículo escolar.
Acredito na força do texto literário que pode proporcionar um outro tipo de conhecimento, aquele que nenhuma outra disciplina pode proporcionar: o conhecimento estético, concebido por meio do prazer da descoberta do real e do poder imagético que esse tipo de texto desencadeia no leitor. A escola não precisa deixar tudo para o Ensino Médio, a última fase escolar de nossos jovens. É importante que inicie uma educação literária já na fase inicial de aprendizado da criança, para que esse indivíduo se torne um leitor mais maduro na juventude, tida como a última etapa desse processo de formação escolar e, dessa forma, prepare-o para uma real transformação.
Enfim, os professores precisam primeiro acreditar na importância do papel do texto literário e buscarem sua própria motivação a fim de motivar seus próprios alunos.


Marta Morais da Costa, m.costa@pucpr.br, 10/8/2008
Tenho acompanhado com interesse as opiniões a respeito da provocação do texto de 2000(!!), de Aldo Bizzocchi. Também pude observar a enorme confusão que existe entre formar um leitor e promover a educação literária. Literatura que se preze se apóia em textos complexos, que analfabetos funcionais dificilmente conseguem destrinçar e avaliar. Como pode avaliar um texto literário, de hoje ou de séculos atrás, quem não lê com proficiência nem notícia de jornal? Leitura posso praticar até mesmo em textos tolos.
Ao conviver com professores de diferentes níveis de formação e atuando em diferentes níveis da educação básica, pude observar a tensão existente entre o desejo de formar leitores literários e repertórios pessoais lacunares e formação pedagógica equivocada. Suas boas intenções esbarram em dificuldades imensas para promover em seus alunos a adesão à literatura.
O texto literário, por natureza, desafia o pragmatismo escolar e as regras fechadas de avaliação. Essa esquizofrenia é uma das razões que leva articulistas, como Bizzocchi, a propor seu desaparecimento da escola. Esquece, porém, que a sede de ficção, beleza e poesia permanece no ser humano, apesar da dessa visão materialista/pragmática de, se não deu certo até aqui, o melhor não é analisar e propor mudanças, mas erradicar a literatura.
Concordo plenamente com Maria de Lourdes Teles: ensinar literatura passa pela paixão e competência do professor.
Toda vez que a escola buscar atrelar o texto literário que merece essa classificação a exercícios de temas transversais, aprendizagem de língua e aulas de moral e ética, ele se tornará estéril e dispensável.
Apesar da má vontade e má compreensão de Aldo Bizzocchi, considero que ele tem razão: essa literatura mal apresentada, forçadamente impingida por professores despreparados, numa sociedade em que a discussão de temas relevantes e absolutamente contundentes se tornou espetáculo e diversão, deve ser banida desse tipo de escola e prática docente que não a merecem.


Wladimir, wmesko@gmail.com, 10/8/2008
O livro didático, ao "didatizar" o texto literário (propondo perguntas, interpretações, relações...) contribui para promover o gosto pela leitura literária ou para jogá-la definitivamente no desinteresse e aversão?


CELINA, cassaljosetti@unb.br, 12/8/2008
A estrutura dos cursos de Letras coloca em relevo a historiografia literária. Ao formarem os futuros professores de língua portuguesa, os cursos dão grande destaque aos “ismos”: Romantismo, Realismo, Parnasianismo, em detrimento do conhecimento real das obras e sem discutir o que vem a ser o ato da leitura, que abordagens remetem a uma interpretação, entre outras questões. Dessa maneira, o futuro professor de língua portuguesa do ensino médio pode sair preparado a declinar as características das escolas literárias – e essa forma de ensinar literatura está presente em todos livros didáticos que estão no mercado hoje!- a seus alunos. No entanto, muitos desses profissionais não logram formar leitores da literatura, nem de outros gêneros nas salas de aula.


Emilio, emilio@uems.br, 12/8/2008
Não é fácil discutir um tema que possui em si contextos diversos que tratam do gênero humano, isto é, a cultura geral de uma pessoa. É algo, realmente, muito amplo e que jamais se esgotará em poucas ou muitas linhas. Deterei-me em um rápido comentário pontual sobre o texto, que por sinal, é bastante provocativo. Independentemente de ideologia e metodologia, parabéns para o autor. O importante é o debate. Então vamos lá: Mas o que é cultura? O que é literatura? O que é arte? Pra que serve tudo isso? Alguns pensam que não serve pra nada. Outros, que é o tudo. Há quem gosta e valoriza e há os que não gostam e não valorizam. E para exemplificar quero me deter no texto apresentado. O autor coloca que Alencar é enfadonho. Posso assegurar que para ele e, certamente, para mais gente. Mas não para a Adriana e a Marlene, ex-alunas do Ensino Médio. Elas adoram os livros do Alencar. Por isso, acredito que a questão não é essa: aquilo que, subjetivamente, é bom ou ruim, é enfadonho ou não. Isso vem depois. E, em se tratando de escola, ela deve proporcionar ao aluno um aprendizado que lhe possibilite uma apropriação mínima do saber, ou seja, da cultura geral. A escola humanista precisa continuar preparando o aluno para a vida em geral, e vida não é só trabalho, dinheiro, posição social; vida é muito, muito mais, viver é muito mais. Ora, todos sabem que Medicina, Direito, Administração são áreas importantes e formam profissionais importantes para a sociedade, mas poesia, romance, amor e liberdade é o que nos mantém vivos. Tenho certeza que um médico ou um advogado poetas farão muito mais a diferença do que serem somente "um médico e um advogado". Vejo que a escola pode fazer isso, pode e deve. Mas como? Penso que, à escola, cabe apresentar ao seu aluno livros, mas livros que o ajude a ser melhor enquanto ser humano, e faça dele não mais um, mas um que faça a diferença. Selecionar conteúdo é uma questão importante e não tem como não fazê-lo. Por isso, insisto num mínimo, e que este mínimo mostre o caminho ao aluno, depois é com ele. Aí caberá somente a ele dizer se tal obra é enfadonha ou não, mas o importante é que a escola apresentou, discutiu e o fez pensar. Depois disso, tenho certeza que ele terá sabedoria para externar sua opinião acerca do que é bom ou ruim.


Vânia Maia, vaniasantos@univali.br, 12/8/2008
O texto em questão traz uma discussão séria, porém antiga. Concordo quando diz que poderíamos ler outras obras enão somente os clássicos, mas se o educador tiver a noção que José de Alenca ( mesmo não atual como o autor menciona) está inserido no contexto das novelas e romances atuais ficaria muito mais interessante. Quem sabe, através de publicações de clássicos em outro formato, como por exemplo a edição de "Os Lusíadas, Dom casmurro, Iracema, e assim por diante, em quadrinho. O visual é de suma importância e é isso que devemos apostar, não "retirar" as leituras clássicas e sim "vendê-las" com outra "cara".


Wladimir, wmesko@gmail.com, 12/8/2008
O problema principal de 'vender' a literatura com outra 'cara' seria o fato de usar as outras artes/linguagens apenas como um meio de 'transmissão' de um conteúdo. Se há a literatura de romances, tal como a conhecemos, também há a literatura própria dos quadrinhos, com sua história, seus autores, seus estilos...


Leandro Cauneto, leandro_cauneto@hotmail.com, 12/8/2008
A literatura se difere das outras artes, pois transmite idéias de forma explícita. Um quadro e uma canção são mais subjetivas do ponto de vista que as notas musicais e as perspectivas exploradas num quadro são de acesso mais limitado. Como o ensino deve sempre pensar em formas cidadãos completos para o progresso humano da nação, é claro que algum contato artístico deve ser oferecido, e o mais simples é a literatura.
Não creio que ela tenha importância menor que as outras matérias, nesse aspecto, mas concordo com o problema de abordagem. A literatura deve ser menos historicismo puro - isso ainda pode acontecer com as novas matéris, filosofia e sociologia - e partir para algo mais humanizador, que se insira na realidade do lugar onde é ensinada.
O problema do Brasil, nesse aspecto, pode ser a tradicional abordagem histórica que é dada ao estudo da literatura nacional. Mesmo nas aulas ministradas nos EUA, Érico Veríssimo tomou essa vertente, bem como Alfredo Bosi tem materiais que vêem sob o aspecto histórico, somente.
A questão é que José de Alencar não é velho, pelo contrário, deve ser revisto e ensinado, sim, às crianças, como valor cultural nacional. Na França as criancinhas lêem desde cedo os clássicos, como Molière, e as escolas americanas apresentam ensino literário onde o debate é método recorrente, e as pessoas são estimuladas a produzir também.
Coisas assim deveriam ser implantadas por aqui. O próprio vestibular é o culpado, pois estimula esse tipo de abordagem!


Leandro Cauneto, leandro_cauneto@hotmail.com, 12/8/2008
Wladimir: "O livro didático, ao "didatizar" o texto literário (propondo perguntas, interpretações, relações...) contribui para promover o gosto pela leitura literária ou para jogá-la definitivamente no desinteresse e aversão?"
Isso dependerá de como o professor aproveitar o material. É importante fugir do livro didático e partir para textos que venham ao interesse geral da turma, também. Da literatura é bom que o aluno conheça a história, mas tqmbém absorva a essência do texto como uma obra de arte atemporal, e isso é sempre relativo ao sabor pessoal. Encontrar o ponto de confluência é trabalho do professor em ajudar os alunos e mostrar textos interessantes que possam ser discutidos abertamente e sem preconceitos por parte de ninguém, mesmo que o professor adore certa corrente e os alunos sejam totalmente aversos a ela, e vice-versa.


Wladimir, wmesko@gmail.com, 13/8/2008
ùltimo livro de Todorov (2007) em que aborda o ensino de literatura. Tem o curisoso título de "A literatura em perigo". Uma pequena resenha:

http://www.dn.sapo.pt/2007/01/24/opiniao/a_literatura_perigo.html


Alexandre, alecaroli@gmail.com, 14/8/2008
Ao ler o texto do alto, lembrei-me de uma carta-resposta que foi publicada no mesmo jornal. Aí vai:

"Folha de S. Paulo, 12/7/2000

PAINEL DO LEITOR

O artigo de Aldo Bizzocchi ("Tendências/Debates", 10/7) é constrangedor por aquilo que diz e pelo modo como diz. É uma proposta grave, embora baseada numa argumentação ingênua: suprimir os cursos de literatura brasileira e portuguesa do secundário. Que outras literaturas e outras artes devam ser ensinadas, nada mais louvável. Mas começar eliminando o contato mínimo dos alunos com livros, com obras de ficção e de poesia, não é nem pode ser o bom caminho. A literatura é um dos eixos centrais das humanidades, ela é fundadora de pensamento. Sem dúvida, é um ensino que deve ser reforçado e melhorado no secundário. A prova está no próprio artigo de Bizzocchi: seu autor ainda não descobriu o valor das humanidades e da literatura. Ele não "repensa", como diz falsamente o título, esse ensino: ele suprime, corta, destrói o pouco que existe. Acreditar no caráter fecundador e subversivo da literatura, mesmo nas piores condições, é lutar por um mínimo de luz, para que a barbárie não se torne absolutamente dominante. Não há luz de verdade nas fogueiras acesas ao longo do tempo, onde os livros foram queimados."
Luiz Dantas, diretor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, e-mail: dantas@iel.unicamp.br (Campinas, SP)"


Lucinea/UEL, lucinea@uel.br, 15/8/2008
Prezado
Aldo Bizzocchi
Ler seu texto levou-me a pensar acerca de alguns conceitos: o de literatura, o de leitura e o de formação de leitores, por exemplo, além, é claro, da nossa visão de mundo. Conforme conceituemos essas palavras/expressões e as trazemos para o nosso dia-a-dia, podemos tecer considerações a respeito do seu posicionamento. Opto por fazê-lo partindo dos seus argumentos finais, recortando:
“ Assim, por que a leitura dos estudantes deve se dar apenas sobre a literatura de ficção e não sobre jornais, revistas e livros de não-ficção?”
Acredito, professor, que a leitura dos estudantes precisa ser significativa. E isso, para se alcançar, passa pela relação professor-aluno. No entanto, algumas idéias são de caráter geral. Ex.: as pessoas são formadas à luz de conhecimentos vários e isso inclui ficção e não-ficção e, portanto, esse processo compreende, sim, jornais, revistas e livros. A não-ficção está, tradicionalmente, no universo escolar/acadêmico. Detenhamo-nos, então, na ficção: na literatura, nas poesias. O que elas representam para quem as lê? Nossa argumentação segue os rumos já descritos por Guido (Humberto A. O.), no texto “Literatura”, parte do livro “Humanidades” (DP&A):
• “A literatura é a arte da palavra, e surgiu bem antes dos homens se tornarem capazes de usar a escrita do tipo alfabético” (p. 135):
• “a arte literária é tão antiga quanto a pintura rupestre”;
• “o surgimento do mito foi o nascimento do homem social”;
• “a literatura primitiva foi poesia”;
• “muito antes da escrita moderna, as comunidades primitivas caatavam em versos tudo aquilo que eram capazes de vislumbrar.”
• “as [ ] modalidades literárias que se seguiram à epopéia eram o intermediário entre a fala e a escrita” (p. 137);
• “a vida adquire notoriedade quando é contemplada na obra literária, ganhando significação que extrapola os limites imediatos da existência” (p. 138);
• O texto literário é a segunda máscara que dá novas feições para algo que é conhecido de todos de todos (...) tira e encobre o perfil mundano do cotidiano para no seu lugar destacar a sublimidade da vida humana. A vida é arte (p. 138).

Muito poderíamos acrescentar neste rol... No entanto, esses argumentos já nos permitem, parece, sustentar a idéia de que a gente (todos nós; alguns mais, outros menos) tem muitas “fomes”. “Fome de comida, de bebida, diversão e arte”, como diz a música nossa conhecida, e fome de goiabada, de literatura, de poesia. Como levar o aluno a descobrir que pode saciar dessa e doutras fomes se não o apresentamos a essa(s) “comida(s)”???
Por último, quero acreditar que nosso trabalho com vistas à formação do aluno carece de ser visto frente à referência do “ser” humano. O vestibular é apenas uma etapa da existência (do ser) - e ainda de poucos -.
“Pontos a ponderar”, professor!
Abraço,
Lucinea/UEL


Lucinea/UEL, lucinea@uel.br, 15/8/2008
Prezado
Aldo Bizzocchi
Ler seu texto levou-me a pensar acerca de alguns conceitos: o de literatura, o de leitura e o de formação de leitores, por exemplo, além, é claro, da nossa visão de mundo. Conforme conceituemos essas palavras/expressões e as trazemos para o nosso dia-a-dia, podemos tecer considerações a respeito do seu posicionamento. Opto por fazê-lo partindo dos seus argumentos finais, recortando:
“ Assim, por que a leitura dos estudantes deve se dar apenas sobre a literatura de ficção e não sobre jornais, revistas e livros de não-ficção?”
Acredito, professor, que a leitura dos estudantes precisa ser significativa. E isso, para se alcançar, passa pela relação professor-aluno. No entanto, algumas idéias são de caráter geral. Ex.: as pessoas são formadas à luz de conhecimentos vários e isso inclui ficção e não-ficção e, portanto, esse processo compreende, sim, jornais, revistas e livros. A não-ficção está, tradicionalmente, no universo escolar/acadêmico. Detenhamo-nos, então, na ficção: na literatura, nas poesias. O que elas representam para quem as lê? Nossa argumentação segue os rumos já descritos por Guido (Humberto A. O.), no texto “Literatura”, parte do livro “Humanidades” (DP&A):
• “A literatura é a arte da palavra, e surgiu bem antes dos homens se tornarem capazes de usar a escrita do tipo alfabético” (p. 135):
• “a arte literária é tão antiga quanto a pintura rupestre”;
• “o surgimento do mito foi o nascimento do homem social”;
• “a literatura primitiva foi poesia”;
• “muito antes da escrita moderna, as comunidades primitivas caatavam em versos tudo aquilo que eram capazes de vislumbrar.”
• “as [ ] modalidades literárias que se seguiram à epopéia eram o intermediário entre a fala e a escrita” (p. 137);
• “a vida adquire notoriedade quando é contemplada na obra literária, ganhando significação que extrapola os limites imediatos da existência” (p. 138);
• O texto literário é a segunda máscara que dá novas feições para algo que é conhecido de todos de todos (...) tira e encobre o perfil mundano do cotidiano para no seu lugar destacar a sublimidade da vida humana. A vida é arte (p. 138).

Muito poderíamos acrescentar neste rol... No entanto, esses argumentos já nos permitem, parece, sustentar a idéia de que a gente (todos nós; alguns mais, outros menos) tem muitas “fomes”. “Fome de comida, de bebida, diversão e arte”, como diz a música nossa conhecida, e fome de goiabada, de literatura, de poesia. Como levar o aluno a descobrir que pode saciar dessa e doutras fomes se não o apresentamos a essa(s) “comida(s)”???
Por último, quero acreditar que nosso trabalho com vistas à formação do aluno carece de ser visto frente à referência do “ser” humano. O vestibular é apenas uma etapa da existência (do ser) - e ainda de poucos -.
“Pontos a ponderar”, professor!
Abraço,
Lucinea/UEL


Wladimir, wmesko@gmail.com, 18/8/2008
Infelizmente, acho que a afirmação da literatura enquanto arte 'intrínseca' à vida (aliás, se "a vida é arte", o que não seria?) não ajudará a resolver o fosso que existe entre os alunos do ensino médio e os clássicos da literatura, como apontado por Bizzocchi. O problema, parece, é que a tal "sublimidade da vida humana" parece escrita numa quase língua estrangeira para estes alunos. Alguma sugestão sobre como aproximá-los e por quê?


Lucinea, lucinea@uel.br, 18/8/2008
Mais ponderações!
Dizer que a “literatura (...) [é] 'intrínseca' à vida” implica, parece, o ensino (e aprendizagem) do ato de ler e aqui falamos da leitura contínua, a nos acompanhar sempre. Isso passa pela “história da literatura brasileira e portuguesa”, mas a ela não se restringe. Quando confundimos ensinar “a” com ensinar “sobre/a respeito de” fugimos da possibilidade de alcance dos objetivos, que poderiam ser atingidos com o exercício do “ensinar a” (ler, neste caso)...
No que diz respeito a "sublimidade da vida humana’ parece escrita numa quase língua estrangeira para estes alunos” vale lembrar o que já defendemos anteriormente: a leitura dos estudantes precisa ser significativa. E isso, para se alcançar, passa pela relação professor-aluno e pelo leitor que o professor é. Essa vivência de leituras poderá ajudar na escolha de textos, que possam levar os alunos à aproximação/inserção do/no mundo da leitura.
Acrescentamos: a leitura de textos em diferentes suportes (palavra, imagem, som...) pode ser uma alternativa que leve à aproximação do estudante com o texto. Trabalhos nesta direção têm maior chance de êxito.
Por fim, em um país onde o jeitinho brasileiro ficou associado à política do levar vantagem em tudo e onde a ausência de valores, aqueles chamados universais, se faz presente de maneira acintosa, sabemos que é um desafio ensinar a “ler para ser” – ler para a vida. No entanto, desistir, jamais!


Wladimir, wmesko@gmail.com, 22/8/2008
A professora Roxane Rojo (iel - unicamp), em artigo no prelo, aponta que é preciso considerar:

"a multissemiose que as possibilidades multimidiáticas e hipermidiáticas do texto eletrônico trazem para o ato de leitura: já não basta mais a leitura do texto verbal escrito – é preciso colocá-lo em relação com um conjunto de signos de outras modalidades de linguagem (imagem estática, imagem em movimento, som, fala) que o cercam, ou intercalam ou impregnam; esses textos multissemióticos extrapolaram os limites dos ambientes digitais e invadiram também os impressos (jornais, revistas, livros didáticos)".


mariagabrielle, maria.gabrielle@globo.com, 23/8/2008
literatura de ficção e não sobre jornais, revistas
Acredito, professor, que a leitura dos estudantes precisa ser significativa. E isso, para se alcançar, passa pela relação professor-aluno. No entanto, algumas idéias são de caráter geral. Ex.: as pessoas são formadas à luz de conhecimentos vários e isso inclui ficção e não-ficção e, portanto, esse processo compreende, sim, jornais, revistas e livros. A não-ficção está, tradicionalmente, no universo escolar/acadêmico. Detenhamo-nos,


Letícia Afonso Rosa Garcia, leticiarosa@unipar.br, 26/8/2008
Tenho sempre cautela com os extremos, eles ocultam situações revelantes que precisam ser vislumbradas, mas não podem ser contempladas das extremidades. Tal situação aplica-se ao ensino da literatura. Discordo do autor quando sugere quase que a exclusão dos clássicos das salas de aula, mas concordo quando ele afirma que é necessária uma adaptação da forma de ensino e do material proposto para as aulas de leitura.
Precisamos sim conhecer autores como José de Alencar, pois para entender a literatura atual é importante conhecer a sua trajetória, desconsiderá-lo é apagar a história e reforçar o rótulo de que o Brasil é um país sem memória. No entanto, realmente, o conceito de leitura precisa ser ampliado, para que a escola inclua em sala de aula objetos portadores de texto atuais que são lidos pelos alunos fora da sala de aula, como os jornais, a televisão e a internet: é a educomunicação mostrando-se urgente e necessária no ambiente escolar.


Letícia Afonso Rosa Garcia, leticiarosa@unipar.br, 26/8/2008
Tenho sempre cautela com os extremos, eles ocultam situações revelantes que precisam ser vislumbradas, mas não podem ser contempladas das extremidades. Tal situação aplica-se ao ensino da literatura. Discordo do autor quando sugere quase que a exclusão dos clássicos das salas de aula, mas concordo quando ele afirma que é necessária uma adaptação da forma de ensino e do material proposto para as aulas de leitura.
Precisamos sim conhecer autores como José de Alencar, pois para entender a literatura atual é importante conhecer a sua trajetória, desconsiderá-lo é apagar a história e reforçar o rótulo de que o Brasil é um país sem memória. No entanto, realmente, o conceito de leitura precisa ser ampliado, para que a escola inclua em sala de aula objetos portadores de texto atuais que são lidos pelos alunos fora da sala de aula, como os jornais, a televisão e a internet: é a educomunicação mostrando-se urgente e necessária no ambiente escolar.


Fabia Aparecida de Oliveira Gomes, theed1@ig.com.br, 29/8/2008
Não considero um desperdício o ensino da literatura brasileira e portuguesa aos nossos alunos, mas concordaria se ele colocasse que esse ensino deve ser reformulado e baseado e comaprações, para o aluno entender que a literatura é uma confrontação do presente com o passado reavivando assim, a história e toda sua efemeridade.

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